Estratégia para erradicação do traço mármore em linhagens de bettas

genetica-de-bettas

Apresentação

Você já viu bettas que têm cores e distribuição de cores que se alteram ao longo de sua vida?

Isto é causado pelo gene mármore quando presente no DNA destes exemplares. Trataremos deste assunto neste artigo, sua problemática na fixação de linhagens em estufas de criadores sérios e apresentaremos uma proposta visando sua erradicação.

Traço mármore: sinônimo de instabilidade em exemplares de bettas

O genótipo do traço mármore, quando presente no DNA do Betta, resulta na instabilidade de suas cores e distribuição de cores, ou seja, mudarão aleatoriamente e descaracterização todo o trabalho realizado pelo criador visando a obtenção de uma linhagem já consagrada ou mesmo uma nova linhagem.

A foto a seguir indica justamente a presença deste gene no fenótipo do betta, veja:

O peixe Betta comercializado hoje, ou simplesmente Betta, mantido em aquários nos mais diversos lugares do mundo, é um híbrido viável e fértil do cruzamento entre diferentes espécies puras pertencentes ao grupo de espécies Splendens (entre elas o Betta splendens, o Betta imbellis, Betta smaragdina, Betta stiktus e Betta mahachaiensis). Daqueles acasalamentos entre as espécies supracitadas, surgiram muitas características diferentes no DNA desses híbridos que temos hoje em dia.

 

Uma rápida reflexão sobre como é na natureza: a ausência do traço mármore

Em seu habitat, o betta não possui marmorização – presença do traço mármore. Isto sugere que os indivíduos com este traço, quando presente, tenham chance menor de sobrevivência frente aos predadores. Portanto, terão poucas chances de procriarem, o que resultaria na perpetuação do gene mármore.

Ainda sobre seu habitat, sabe-se que estes ecossistemas apresentam fundo escuro, com águas na cor de chá, resultado de muitas folhas e galhos de plantas sobre o fundo, ou mesmo águas levemente barrentas.

A atuação do gene mármore diminui a camuflagem natural dos bettas frente a predadores, revelando mais facilmente qual sua posição em seu habitat.

Uma especulação que se pode criar é que, por seleção natural, esses bettas deixam de existir justamente pela falta de proteção causada pelas cores claras em seu fenótipo.

Entretanto, na criação de bettas em cativeiro esses indivíduos com a presença do gene mármore tornaram-se supostamente exóticos, exibindo cores e arranjo de cores nunca visto antes. Por isso, somos da opinião que esta característica atrativa comercialmente se tornou popular entre os criadores, e este gene foi fixado.

Portanto, é um traço muito comum atualmente, mas indesejado por todo criador que almeja obter um trabalho consistente, onde possa garantir e manter fenótipos bem definidos nas ninhadas subsequentes.

 

A necessidade de eliminação do traço mármore na criação seletiva de bettas

Imagine que você está aprimorando há muitos anos uma linhagem de bettas copper, obtendo exemplares sem qualquer infiltração de outras cores quando, de repente, se faz necessário adquirir um exemplar de outro criador para evitar a alta consanguinidade na sua linha de sangue ou criação.

E qual a surpresa resultante do cruzamento deste novo exemplar? Indivíduos apresentando marmorização por todo o fenótipo, destruindo todo aquele trabalho que estava sendo feito por você.

Justamente isto que queremos evitar, propondo um método para eliminação deste traço em sua criação!

 

Características do traço mármore

1 – o traço mármore é recessivo;

2 – mesmo em bettas geneticamente mármores, há casos nos quais a atuação do traço mármore parece não ocorrer no fenótipo, pois está associada a um fator relativo ao tempo cronológico, de vida o betta, que está definido no DNA de cada exemplar.

Por exemplo, há bettas que já nascem com o fenótipo marmorizado (fator tempo = 0), sendo totalmente ausente de cor – os chamados cellophane.

Por outro lado, há bettas que possuem o gene o mármore, porém seu fenótipo não apresenta o traço (fator tempo = 4 anos, por exemplo).

Ou seja, mesmo o betta sendo geneticamente mármore, poderá não exibir qualquer marmorização no fenótipo. A esses exemplares mármores, denomino mármores ocultos (hidden marbles).

3 – numa mesma ninhada existe a possibilidade de haver bettas marmorizando em diferentes períodos.

 

Simplificação das condições de ocorrência de marmorização

A prática tem mostrado que, na maioria das vezes, o traço se manifesta nas ninhadas em até seis meses de idade. Ou seja, após esse período, aqueles que não marmorizaram, não marmorizarão mais. E realmente, a ocorrência dos “mármores ocultos” é mais rara.

Como consequência direta desta simplificação, recomendo que a escolha de matrizes deve correr após os seis meses de idade dos indivíduos para futuros acasalamentos.

 

Modelagem e cálculos probabilísticos

Se o traço é recessivo, então teremos:

Uma vez respeitada a condição supracitada (> 6 meses de idade na seleção/troca/aquisição), temos que:

  • bettas que não marmorizaram após os seis meses de vida não marmorizarão até o final de sua vida. Ou seja, o traço “mármore oculto” (hidden marble, como estamos nomeando) é raro, além de não ser possível identificá-lo. Logo, para fins práticos, partiremos da premissa que traço hidden marble não ocorrerá; não é detectável (gene mb¹mb¹, assim denominado por nós);
  • bettas não marmorizados terão um destes genótipos: MbMb ou Mbmb;
  • bettas marmorizados, os quais não serão selecionados, terão genótipo mbmb para este traço;

 

Uma observação importante: do ponto de vista desta estratégia, bem como pelas condições supracitadas, consideraremos a notação mbmb = mb¹mb¹.

A estratégia de erradicação do traço mármore na prática

Teremos com genótipo desejado MbMb, que indica um betta homozigoto livre do traço mármore, onde sob hipótese alguma transmitirá às gerações posteriores a marmorização.

Porém, somente contemplando os fenótipos, não teremos condições de saber qual indivíduo é portador e qual não é portador.

Do ponto de vista dos fenótipos, MbMb = Mbmb.

Como estamos iniciando um trabalho de seleção para a erradicação do traço mármore de uma linhagem, não sabemos quais genótipos iniciais poderão estar presentes nas matrizes, isto é, não sabemos se o casal é (Mb Mb x Mb Mb), (Mb Mb x Mb mb), ou (Mb mb x Mb mb).

Obs.: lembramos novamente que não se cogitou a hipótese de termos uma das matrizes (ou as duas) com o genótipo mbmb, já que o casal será formado após seis meses. Bettas com este genótipo marmorizariam até essa data, além de que nesta estratégia não teremos “mármores ocultos” (mb¹ mb¹).

Conclui-se que, se os juvenis de F1 não marmorizarem com até os seis meses de idade, de acordo com nossas premissas iniciais, o casal terá os genótipos MbMb x MbMb, MbMb x Mbmb, e os alevinos não produzirão mbmb, que é o betta com possiblidade de marmorização.

Mas qual seria a probabilidade de se obter casais com os genótipos acima citados?

Começaremos por calcular quais as probabilidades de obtermos os genótipos MbMb  e Mb mb.

Cada genótipo poderá vir de quaisquer das três combinações possíveis de casais formados inicialmente, ou seja:

Note que estes casais são aqueles que os indivíduos não marmorizam.

Destes casais, obtém-se:

MbMb = 7/12 = 58,3%

Mbmb = 4/12 = 33,3%

mbmb = 1/12 = 8,3%

Portanto, para que tenhamos um casal Mb Mb x Mb Mb teremos a probabilidade teórica de 7/12 x 7/12 = 49/144. Por outro lado, para um casal MbMb x Mbmb a probabilidade é de 7/12 x 4/12 = 28/144.

Ou seja, a probabilidade teórica de se formar um casal livre do traço mármore, que é o desejado por quem desenvolve e/ou aprimora linhagens com padrões de distribuições de cores bem definidas, é 1,75 vezes maior do que aquela de se formar um casal com um dos reprodutores sendo portador do traço.

Em termos práticas, as probabilidades reais de ocorrências de cada genótipo serão cada vez mais próximas das teóricas à medida que o tamanho das ninhadas aumenta em número de indivíduos. Para pequenas ninhadas, os valores de ocorrência reais de cada genótipo serão bem diferentes desses valores teóricos acima mostrados.

Portanto, escolhemos um caminho alternativo.

 

Estruturação de uma proposta prática de manejo para a erradicação do traço mármore

Nesse fluxograma, a “matriz” poderá ser Mb Mb ou Mb mb, já que não apresenta marmorização.

E o fluxograma mostra que, se a “matriz” for Mb mb, ao ser cruzada com um betta mármore qualquer (portanto, mb mb), obrigatoriamente, surgirão indivíduos marmorizados mb mb.

Imagine um casal de reprodutores A e B selecionados dentro da linhagem em que estivermos trabalhando, p.ex., copper.

Como resultado em F1 obtivemos bettas copper, alguns apresentando marmorização, e outros não.

Temos que bettas marmorizados possuem o genótipo (mb mb), e os não marmorizados (Mb Mb, ou Mb mb, ou mb¹mb¹).

Mas, como saber quais possuem o genótipo Mb Mb?

Esperamos a ninhada F1 (do casal A x B) se desenvolver até seis meses, separamos as matrizes F1 que não marmorizaram e que nos agradaram do ponto de vista da linhagem que estamos trabalhando. Lembre-se que o nosso objetivo principal é aprimorar uma linhagem copper, e pegamos essas matrizes selecionadas (que poderão ser Mb Mb, ou Mb mb, ou mb¹mb¹), e as cruzamos com bettas mármores. Ou seja:

Aquelas matrizes cruzadas com mármores, e que não apresentarem bettas marmorizados em suas ninhadas, serão, ou Mb Mb ou mb¹mb¹.

Porém, como a ocorrência de “mármores ocultos” é bem pequena, imagine agora um copper selecionado para o aprimoramento de nossa linhagem, sendo cruzado com um mármore, e obtendo uma ninhada na qual somente ocorram “mármores ocultos”.

As evidências práticas vêm mostrando que a probabilidade de ocorrência deste evento (somente “mármores ocultos”) é tão baixa, que chega a ser desprezível.

Portanto, daqui para a frente podemos considerar que uma matriz, quando cruzada com um betta marmorizado qualquer, e não produzindo mármores, será considerada Mb Mb.

Então podemos atualizar o fluxograma anteriormente mostrado:

Lembramos que somente para as primeiras gerações é que pagaremos o preço de trabalharmos com matrizes mais velhas garantidas contra essa mazela. A atuação desse traço em linhagens que precisam ser bem definidas nos quesitos cores e distribuição de cores deve ser erradicada.

Concluindo, reforço a importância de se usar técnicas para a seleção correta de matrizes em seu plantel.

É imprescindível a observação e modelagem dos fenótipos encontrados nas ninhadas.

Boa sorte com seus Bettas!