Dimensionamento de estufas para criação seletiva de bettas

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Dimensionar estufas de peixes ornamentais, especialmente de bettas, requer planejamento e visão a médio e longo prazos. Isto porque o número de peixes tende a aumentar muito, uma vez que a quantidade de alevinos que sobrevivem a cada ninhada aumenta de acordo com o manejo do criador.

Via de regra, o criador inicia com um casal de bettas e possui um aquário para o acasalamento e outro para o crescimento dos alevinos. Além disso, possui acomodações que são utilizadas para o casal quando separado. Também poderá usar aquários ou caixas plásticas de tamanhos diferentes, o que dificulta a padronização e melhor utilização do espaço disponível.

Quando se dimensiona uma estufa de criação de peixes, deve-se ter claro o objetivo da estufa quanto ao tipo de criação:

  1. Criação sem controle genético das linhagens;
  2. Criação com controle genético certificado das linhagens;

A criação sem controle genético das linhagens reduz drasticamente o número de acomodações para os peixes (aquários ou caixas plásticas), os alevinos de ninhadas diferentes são acomodados juntos, o que resulta na perda de lastro de seus ascendentes ou matrizes. Ou seja, as matrizes reproduzem e os peixes são acomodados de acordo com seu tamanho, todos juntos.

Por outro lado, o dimensionamento de estufas de bettas com controle genético certificado requer mais recursos, tanto em espaço como em investimento e esforços para a realização do controle. Neste artigo detalharemos o dimensionamento de estufas de bettas com controle genético certificado.

Este tipo de trabalho se apoia em premissas.

Premissa 1: quanto ao manejo

  • ninhadas de bettas levam de dois a três meses para se desenvolver, desde o nascimento até sua colocação nas beteiras. Para fins práticos, daremos tolerância de três meses de ocupação dos tanques devido aos retardatários;
  • uma ninhada será sempre separada em dois aquários ou caixas de crescimento – chamados de tanques;

 

Premissa 2: quanto às linhas de sangue dentro de uma mesma linhagem

  • haverá sempre que possível três linhas de sangue distintas;
  • em cada uma só poderemos avançar até F3;

 

Premissa 3: outros pontos importantes a considerar no dimensionamento

  • a quantidade de linhagens que serão trabalhadas simultaneamente;
  • linhagens diferentes poderão crescer em um mesmo tanque, desde que o desenvolvimento dos alevinos seja compatível (alevinos de mesmo tamanho) e seus fenótipos complemente diferentes entre si. Exemplo: linhagem de vermelhos x linhagem de azuis;
  • linhagens com fenótipos visualmente semelhantes não poderão ficar juntos em um mesmo tanque. Exemplo: linhagem copper e black copper. Isto porque de ninhadas de black copper sempre podem surgir bettas copper;

 

Criação de bettas com controle genético certificado: Início dos trabalhos

  1. obtido o casal desejado, efetuamos o cruzamento, colocando-o dentro do tanque 1 (TQ1). Assim iniciamos a nossa linha de sangue 1 (L1).
  2. essa ninhada (F1), ficará junta durante quinze dias no TQ1 e, depois disso, uma parte dela (mais ou menos a metade) será colocada em outro tanque (TQ2), onde permanecerá durante três meses para seu crescimento e desenvolvimento, da mesma forma que aqueles no TQ1, naturalmente;
  3. beteiras deverão ser disponibilizadas para acomodar os machinhos que forem se destacando. Recomenda-se muitas plantas flutuantes (samambaias d’água, p.ex.) nos tanques TQ1 e TQ2 para evitar o estresse entre os bettas. Nesse ponto, temos beteiras com o pai, a mãe e os machinhos.
  4. deverão ser escolhidos:
    – uma fêmea para continuar L1,
    – um irmão para cruzar com ela, e continuar L1 (em F2), e
    – uma outra para voltar no pai e criar a linha de sangue 2 (L2).

 

Aconselho, nesse ponto, a:

– desfazer-se de todos os retardatários que estejam em TQ1 e TQ2;
– separar um outro casal de irmãos como segurança;
– desfazer-se todos os demais irmãos (machos e fêmeas).

Esse procedimento deverá ser seguido em qualquer linha de sangue, e em qualquer geração “F” dentro dessa linha.

Nesse ponto teremos, no mínimo, sete beteiras ocupadas, da seguinte maneira:

  • pai;
  • mãe (embora possa não ser mais utilizada – ou só em caso urgente);
  • macho (que continuará L1);
  • fêmea (que continuará L1);
  • macho (reserva);
  • fêmea (reserva) e
  • fêmea (que iniciará a L2).

Observações:

  • Repare que não se pegou uma mesma fêmea para iniciar L2 e continuar L1, desse modo, já evitando um aumento na taxa de consanguinidade, pois mesmo entre irmãos, sempre haverá algumas diferenças nas cargas genéticas;
  • Não se utilizou a fêmea mãe matriarca para cruzar com um filho dela, pois na maioria dos casos, as fêmeas crescem muito, engordam, e os filhos não conseguem acasalar. Mas, nada impede que, se for possível tal acasalamento. Será outra linha que surgirá. Neste trabalho não será cogitada tal possibilidade, mas depois de entendida a filosofia de trabalho aqui apresentada, fique à vontade para dimensionar a estrutura necessária com tal variável.

Premissa 4: continuando

a) nesse ponto já obtemos F2 na L1, e F1 na L2. Veja o diagrama abaixo:

b) na L1, F2 foi obtido com o cruzamento de dois irmãos F1;

c) na L2, F1 foi obtido com o cruzamento do pai com a filha (da L1 em F1).

d) nesse ponto, pegamos um macho da L1 em F1 (de preferência, aquele que ficou como reserva e que não foi utilizado) e cruzamos com uma fêmea da L2 em F1, gerando a linha de sangue L3.

Mas, por que não se lançar mão de um macho da L1 em F2, em detrimento do macho da L1 em F1?

Aqui cabe um leque de discussões e dependerá sempre da qualidade do material genético que está surgindo (fenótipos). Se o macho da F2 da L1 for melhor que aquele da F1 (da L1, é claro), pode-se utilizá-lo e desfazer-se do outro. Porém, se a diferença não for muito significativa, a “distância genética” (perda da carga genética, ou hereditariedade) do F1 da L1 será maior do que aquela do F2 da L1, para a geração da fêmea F1 da L2.

Esse fato não está ligado à idade, e sim, a um maior afastamento dos conjuntos de genes (cargas genéticas) de ambas as gerações e linhas de sangues distintas, dando chance a outras combinações diferentes de genes, com menor atuação dos genes “nocivos” que podem surgir desses acasalamentos entre parentes muito próximos, devido à alta consanguinidade. Pelo menos, vejo dessa maneira, sem qualquer base científica que me ampare nesta afirmativa. Minha experiência de anos, pelo menos, constatou tal tendência.

Visualizando a discussão até agora:

Pelo exposto, vemos que a utilização de um macho da L1 em F1 apresentará uma L3 com uma carga genética menos fechada do que aquela utilizando um macho da L1 em F2.

e) qualquer que seja a escolha para gerar L3 utilizando-se uma fêmea da L2 em F1 com um macho da L1 – L1 em F1 ou L1 em F2 –, temos como resultante:

Premissa 6: chegamos em F3 na linha de sangue 1 (L1)

a) de acordo com a premissa 2, ao se atingir F3 em qualquer linha, há a necessidade de se fazer um “out crossing” – uma abertura total de linha de sangue –, para se iniciar novamente aquela linha.

b) nesse caso, a L1 – como já era esperado – atingiu primeiramente essa marca. Pode-se abrir essa linha com um indivíduo (um macho ou uma fêmea, não importa) de outro criador. Essa matriz deve ser o mais possível afastada geneticamente daqueles com os quais se esteja trabalhando do ponto de vista de parentesco. Ou seja, nenhum parentesco entre o casal é a situação desejada.

Então, podemos mostrar a evolução do cronograma de cruzamentos:

Repare que a mesma discussão que se fez em (5d) poderia ser reaberta aqui, no tocante aos “novos ciclos” das linhas de sangue L2 e L3. Mas por que não se utilizar indivíduos mais afastados geneticamente em detrimento daqueles mais próximos?

O novo ciclo da L2 poderia ser desenvolvido com indivíduo da L3, mas em F1 – ao invés de F2 –, por exemplo.

O mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao novo ciclo da L3, lançando-se mão de indivíduo da F2, ao invés de F3 (ou mesmo da F1).

Isso implica maior quantidade de beteiras disponíveis para acomodar esses indivíduos, de forma a tê-los à disposição no momento exato.

Com essa estratégia, pode-se continuar o trabalho de forma segura e continuada.

Premissa 7: últimas considerações

a) não podemos nos esquecer que a qualquer momento pode-se lançar mão de aberturas de sangue, ou mesmo, cruzamentos entre linhas distintas de sangue (line breeding), sem a obrigatoriedade de se chegar até F3. Vai depender dos resultados obtidos em cada caso.

b) o mesmo se aplica a se avançar adentro de cada linha (inbreeding) e passar de F3 (F4, F5 etc.). O cuidado que recomendo ter para este último tópico é a observação cuidadosa dos resultados estruturais das ninhadas. Independente de qual grau “F” esteja aquela linha de sangue. Possíveis aumentos nas quantidades de indivíduos defeituosos: fracos, doentes, com pouco desenvolvimento, “arrastadores”, com o aparecimento de calombos ou cavidades no corpo – especialmente na cabeça – são alguns de problemas típicos. Além disso, bettas apresentando o dorso protuberante (cabeça de golfinho e muito “bicudos”) e/ou nadadeiras tortas (ou a ausência das mesmas) também são defeitos. E ainda, corpos desproporcionais comparando-se o conjunto de nadadeiras (falta de equilíbrio estético, onde o betta apresenta corpo pequeno e nadadeiras imensas, ou corpo enorme e nadadeiras pequenas).

c) preferencialmente, fotografar todos os bettas com os quais se tenha trabalhado visando a mesma qualidade e característica de imagem/foto: mesma câmera e ajustes, mesma iluminação e aquário, com transparência do vidro e da água. E ainda, caso a linhagem seja de bettas metálicos, ou com alto índice de iridescência, estas condições se tornam ainda mais necessárias.

d) por último, cabe lembrar que todo esse trabalho foi desenvolvido para uma única linhagem! Caso desejemos trabalhar com mais de uma linhagem, multiplicar todas as quantidades envolvidas pelo número total de linhagens.

e) quanto ao número de beteiras necessárias, deixarei a quem desejar aplicar as informações e recomendações contidas nesse trabalho a tarefa de dimensiona-las, pois dependendo da opção filosófica que utilizar, esse número poderá variar bastante.

É claro que, caso o seu manejo não seja apropriado para possibilitar um desenvolvimento adequado aos seus bettas, de tal forma que os tempos de 3 meses não sejam suficientes para sua realocação destes em beteiras individualizadas, todos os tempos totais mudarão, mas não as posições relativas das ocupações dos aquários e tanques nos cronogramas. Ou seja, o cronograma vai se alongar.

f) Uma estratégia à parte é que, quando se chega em F3, em qualquer trabalho, com 3 linhas de sangue, p.ex., ao invés de “out crossing”, com bettas de outros criadores que muitas das vezes não temos a informação no que diz respeito a seus históricos genéticos e, por isso mesmo, poderemos colocar todo o nosso trabalho a perder. Nesses casos, poderemos fazer “line breeding” (troca de exemplares entre linhas de sangue) com as três linhas, da seguinte maneira:

O que guiará na escolha se será o macho da linha 1 com a fêmea da linha 2, ao invés do macho da linha 2 com a fêmea da linha 1, p.ex., será a qualidade mostrada nos respectivos fenótipos (formatos, cores, e distribuições das cores), e também, o seu objetivo a ser alcançado com aquele trabalho específico.

Nesse caso, teremos os novos F1: L1 com L2, L1 com L3, e L2 com L3.

Também poderá ocorrer o caso onde os resultados apresentados em determinada linha não estejam de acordo com os seus objetivos, o que levará ao abandono dela, com descarte total, e a trabalhar com uma linha a menos.

 

Desejamos sucesso com seus Bettas!